terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Escrita Criativa

[...]

Ser singular sem ser individualista, ser solidário.
Ser multi sem ser fragmentado, ser inteiro.

Acolher, estender a mão; saber receber.

Ter uma parede de flores,
um lençol de listas rosas,
uma coleção de lápis.

[...]

Rever o passado, querer o futuro, estar no presente.

Entender os processos, não apressar o rio, saber ir e ficar.

Querer o bem, sabendo do mal.

Acreditar.

[...]

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Seja doador de medula óssea

Campanha de Captação de Doadores de Medula Óssea

Shopping Nova América - Rio de Janeiro

Dias 11 e 12 de dezembro

Das 14h30 às 20h


"DOAR MEDULA NÃO DÓI E SALVA VIDAS!

A chance de encontrar um doador compatível é de 1 em 100.000. Daí a dificuldade de se encontrar doador.

PARA SER UM DOADOR VC PRECISA:
- Ter entre 18 e 55 anos.
- Estar saudável.
- Não ter tido câncer.
- Portar RG e CPF.

Após o preenchimento do seu cadastro, será coletada uma pequena quantidade de sangue (10ml ) para a realização do teste de compatibilidade genética ( HLA ). Suas características genéticas serão colocadas no Registro Nacional de doadores de medula óssea: REDOME.
Agora é só esperar pra ser chamado!


Como é feita a doação:

Será retirada por sua veia uma pequena quantidade de sangue (10ml) e preenchida uma ficha com informações pessoais.Seu sangue será tipado por exame de histocompatibilidade (HLA), que é um teste de laboratório para identificar suas características genéticas que podem influenciar no transplante.Seu tipo de HLA será incluído no cadastro. Quando aparecer um paciente, sua compatibilidade será verificada. Se você for compatível com o paciente, outros exames de sangue serão necessários. Se a compatibilidade for confirmada, você será consultado para decidir quanto à doação. Seu atual estado de saúde será então avaliado. A doação é um procedimento que se faz em centro cirúrgico, sob anestesia peridural ou geral, e requer internação por um mínimo de 24 horas. Nos primeiros três dias, após a doação, pode haver desconforto localizado, de leve a moderado, que pode ser amenizado com o uso de analgésicos e medidas simples. Normalmente, os doadores retornam às suas atividades habituais depois da primeira semana."

Tire suas dúvidas e veja os locais de doação no site do INCA: http://www.inca.gov.br/

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

para Francisco

Em setembro descobri, não lembro como, um blog muito especial: parafrancisco.blogspot.com.
Uma mulher perde o marido enquanto está grávida e resolve criar o blog para "gritar para o mundo" e contar sobre o pai, para Francisco. Li alguns posts, deixei um comentário, adicionei aos meus favoritos. Hoje vejo no Sem Censura que o blog gerou um livro, editado pela Saraiva. Adorei saber.

É muito bom perceber a capacidade humana de transformar o sofrimento; não pela negação, mas pela coragem de encarar, de chorar, de (se) expor, de assumir o que é preciso, de ser consolado.

Em mim, ajuda a criar coragem.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Bálsamo 2

Você já encontrou sua turma?

O patinho feio
(do livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés)

Já estava quase na época da colheita. As velhas faziam bonecas verdes com a palha do milho. Os velhos remendavam cobertores. As moças bordavam flores de um vermelho vivo nos seus vestidos brancos. Os rapazes cantavam enquanto empilhavam o feno dourado. As mulheres tricotavam blusões ásperos para o inverno que viria. Os homens ajudavam a colher, arrancar, cortar e ceifar os frutos que os campos haviam produzido. O vento apenas começava a soltar as folhas um pouco mais, e mais um pouco a cada dia que passava. E lá para os lados do rio, uma pata chocava uma ninhada de ovos.

Tudo estava indo como deveria para essa mãe pata e, afinal, um a um, os ovos começaram a tremer e sacudir até que as cascas racharam e deles saíram cambaleantes seus novo filhtes. Restava, porém, um ovo, um ovo muito grande. Ele estava ali parado como uma pedra.
Uma velha pata veio visitar, e a mãe pata exibiu seus filhotes.
- Eles não são lindos? - gabou-se ela. Mas o ovo ainda sem rachar chamou a atenção da velha pata, e esta tentou dissuadir a mãe de continuar a chocar aquele ovo.
-É um ovo de peru - exclamou a velha pata. - Absolutamente não serve como ovo. Não se pode levar um peru para dentro d'água, você sabia? - Ela sabia, porque já havia tentado.
A mãe pata, no entanto, achou que estava chocando há tanto tempo que mais um pouquinho não ia fazer mal.

Afinal, o ovo grande começou a estremecer e a rolar. Acabou quebrando, e dele saiu uma criatura grande e desajeitada. Sua pele era marcada por veias sinuosas azuis e vermelhas. Seus pés eram de um roxo claro. Seus olhos, de um rosa transparente.
A mãe pata inclinou a cabeça, esticou o pescoço e o contemplou. Não pode se conter: ele era feio mesmo. Talvez seja mesmo um peru!, preocupou-se ela. Contudo, quando o patinho feio entrou na água acompanhando os outros filhotes, a mãe pata viu que ele nadava muito bem. É, ele é dos meus, apesar de ter essa aparência estranha. No fundo, porém, do ângulo certo... ele é quase bonito.
E assim ela o apresentou às outras criaturas do quintal da fazenda, mas, antes que percebesse, outro pato atravessou o quintal a toda e bicou o patinho feio bem no pescoço.

- Pare com isso! - gritou a mãe pata.
- Ora, ele é tão feio e esquisito. Ele precisa que o maltratem - retrucou o valentão.
- Oh, mais uma ninhada! Como se já não tivéssemos bocas demais a alimentar! - exclamou a pata rainha com o trapo vermelho na perna. - E aquele lá, aquele grandão e feio? Bem, aquilo sem dúvida é um engano.
-Ele não é um engano - disse a mãe pata. - Ele vai ser muito forte. Foi só que ele ficou tempo demais dentro do ovo e ainda está meio deformado. Mas ele vai se recuperar. Vocês vão ver. - Ela limpou com o bico as penas do patinho feio e lambeu seu topete.
Os outros, no entanto, faziam tudo o que podiam para importunar o patinho feio. Voavam para atacá-lo, bicavam-no e gritavam com ele. E à medida que o tempo passava, eles o atormentavam cada vez mais. Ele se escondia, se desviava, saía em ziguezague, mas não conseguia escapar. O patinho era a mais infeliz das criaturas.

A princípio sua mãe o defendia, mas, com o tempo até ela se cansou daquilo tudo.
- Como eu queria que você fosse embora - exclamou exasperada. E foi assim que o patinho feio fugiu. Com a maior parte das suas penas arrancada e todo enlameado, ele correu e correu até chegar a um pântano. Ali ele se deitou à beira d'água com o pescoço esticado e sorvia um pouco d'água de vez em quando.
Dos juncos dois gansos o observavam. Eram jovens e cheios de si.
- Ei, você aí, criatura horrorosa - disseram rindo. - Quer vir conosco?
De repente, ecoaram tiros. Os gansos caíram com um baque e a água do pântano ficou vermelha com seu sangue. O patinho feio mergulhou para se abrigar, e por toda parte só havia tiros, fumaça e cães latindo.

Afinal, o pântano ficou tranquilo, e o patinho saiu correndo e voando a maior distância possível. Perto do anoitecer, ele chegou a um pobre casebre. A porta estava pendurada por um barbante, e havia mais fendas do que paredes. Ali vivia uma velha esfarrapada com seu gato desgrenhado e sua galinha vesga. O gato fazia jus a morar com a velha por apanhar camundongos. A galinha, por botar ovos.
A velha achou que estava com sorte por ter encontrado um pato. Talvez fosse uma pata e também botasse ovos e, se não fosse, podia matá-lo para comer. E assim o pato ficou, mas ele era perseguido pelo gato e pela galinha.
No final das contas, ficou claro que aqui também não haveria paz para o patinho, e por isso ele partiu para ver se as coisas podiam ser melhores mais adiante.

Ele encontrou por acaso um laguinho e, enquanto esta nadando, foi ficando cada vez mais frio. Um bando de aves passou voando lá em cima, as mais lindas que ele já havia visto. Elas gritaram para cumprimentá-lo, e ouvir suas vozes fez com que o coração do patinho saltasse e se apertasse ao mesmo tempo. Ele gritou de volta com uma voz que nunca havia emitido antes. Ele nunca havia visto criaturas mais lindas, e nunca havia se sentido mais desolado.
Ele girou e girou na água para observá-las enquanto desapareciam nos céus e depois mergulhou até o fundo do lago e ali se aninhou, trêmulo. Estava fora de si por sentir um amor desesperançado por aqueles enormes pássaros brancos, um amor que ele não conseguia entender.

Um vento mais frio começou a soprar e foi ficando cada vez mais forte com o passar dos dias. E a neve caiu sobre o gelo. Os velhos quebravam o gelo nos baldes de leite, e as velhas fiavam até tarde da noite. As mães alimentavam três bocas de cada vez à luz de velas, e os homens saíam à procura de ovelhas sob o céu branco da meia noite. Os jovens entravam na neve até a cintura para ir ordenhar, e as moças imaginavam ver o rosto de rapazes bonitos nas chamas do fogão enquanto cozinhavam. E no lago ali por perto, o patinho precisava nadar cada vez mais rápido em círculos para manter um lugar aberto no gelo.

Um dia de manhã, o patinho se descobriu preso no gelo e foi aí que ele sentiu que ia morrer. Dois patos selvagens vieram voando e chegaram escorregando no gelo. Eles observaram o patinho.
- Como você é feio - grasnaram. - Que pena. É uma tristeza. Não se pode fazer nada por alguém como você. - E saíram voando.
Felizmente, um lavrador passou por ali e libertou o patinho quebrando o gelo com seu cajado. Ele levantou o patinho, abrigou-o no casaco e voltou para casa. Na casa do lavrador, as crianças quiseram pegar o patinho, mas ele teve medo. Voou até os caibros do telhado, fazendo com que toda a poeira caísse na manteiga. De lá de cima, ele mergulhou direto no balde de leite e, quando ia saindo todo molhado e grudento, caiu no barril de farinha de trigo. A mulher do lavrador saiu atrás dele com uma vassoura enquanto as crianças riam a mais não poder.
O patinho saiu agitado pela porta do gato e, lá fora afinal, caiu quase morto na neve. Dali, ele se forçou a prosseguir até chegar a mais um lago, a mais uma casa, a outro lago, a outra casa, e o inverno inteiro transcorreu dessa forma, alternando entre a vida e a morte.

Mesmo assim, a brisa suave da primavera voltou. As velhas vieram arejar os acolchoados, e os velhos guardaram suas ceroulas compridas. Novos bebês chegavam no meio da noite, enquanto seus pais andavam de um lado para o outro no quintal, debaixo do céu estrelado. Durante o dia, as moças enfiavam narcisos nos cabelos, e os rapazes examinavam os tornozelos femininos. E num lago por ali, a água ficou mais agradável e o patinho feio que nela boiava abriu as asas.

Como eram grandes e fortes as suas asas. Elas o levaram bem para o alto acima da terra. Dos céus, ele via os pomares com seus mantos brancos, os lavradores arando, os jovens de toda a natureza saindo da casca, tropeçando, zumbindo e nadando. Também brincando na água do lago havia três cisnes, as mesmas criaturas maravilhosas que ele havia visto no outono; aquelas que lhe haviam causado um aperto tão forte no coração. Ele sentiu um impulso de se unir a elas.
E se fingirem que gostam de mim, e depois, assim que eu me aproximar, saírem voando às risadas? - pensou o patinho. Ele desceu planando e pousou no lago, com o coração batendo forte.
Assim que o viram, os cisnes começaram a nadar na sua direção. Sem dúvida, estou a ponto de encontrar meu fim, pensou o patinho, mas, se tenho de ser morto, melhor que seja por essas lindas criaturas do que pela mão de caçadores, donas de casa ou longos invernos. E abaixou a cabeça para aguardar os golpes.

Que surpresa! Na imagem na água ele viu um cisne: plumagem branca como a neve, olhos escuros e tudo o mais. O patinho feio, a princípio, não se reconheceu porque era exatamente igual aos belos estranhos, igual àqueles que ele havia admirado de longe.
E acabou se revelando que ele era um deles no final das contas. Seu ovo por acaso havia rolado para um ninho de patos. Ele era um cisne, um cisne magnífico. E pela primeira vez sua própria família se aproximava dele, tocando-o com cuidado e carinho com as pontas das asas. Eles lhe limparam as penas com seus bicos e nadaram muito ao seu redor para cumprimentá-lo.

- Ei, tem mais um cisne! - gritaram as crianças que vinham trazer migalhas de pão para os cisnes. Como costumavam fazer as crianças de qualquer lugar, elas correram para contar a todos. As velhas vieram até a beira d'água, destrançando seus longos cabelos prateados. Os rapazes juntavam nas mãos em taça um pouco da água limpa e a atiravam na direção das moças, que enrubesciam como pétalas. Os homens tiraram uma folga da ordenha só para tomar um pouco daquele ar. As mulheres pararam um pouco de remendar só para rir com seus parceiros. E os velhos começaram a contar histórias sobre como a guerra é longa e a vida é curta.

E, um a um, fosse pela vida, pela paixão, fosse porque o tempo estava passando, todos se afastaram dançando. Os rapazes, as moças, todos foram embora dançando. Os mais velhos, os maridos, as esposas, todos foram embora dançando. As crianças e os cisnes também se afastaram dançando... deixando ali só nós... a primavera... e mais uma mãe pata chocando seus ovos junto ao rio.

domingo, 2 de novembro de 2008

Viva Pedro Cardoso!

Antes de mais nada, preciso confessar que estou quase um mês atrasada. Eu não sabia que o ator Pedro Cardoso tinha lido um manifesto contra a pornografia durante o Festival de Cinema do Rio. Fiquei sabendo agora, depois de assistir à entrevista dele no programa Conexão Roberto D'Avila.

Gostei muito do que ouvi e fui ler o manifesto, também gostei do que li; da postura, do âmago da questão colocado. Pensei que podia escrever aqui muitas coisas sobre o assunto, mas talvez não seja o caso.

Sempre questionei a nudez "sem justificativa" apresentada na tv e no cinema, e também as revistas de nu "artístico" vendendo "postas de carne" (entre aspas porque é expressão usada por outra pessoa) nas bancas de jornais. Sempre fiquei surpresa com a maneira com que as pessoas veem esses programas e essas revistas achando normal; como reproduzem em seus diálogos e em suas relações essa falta/esse excesso. Sempre achei que esse assunto é uma questão política, uma questão de poder, uma questão de dominação; ligado, principalmente, à manutenção da submissão do feminino e ao consumo.

Os excessos, como já disse alguma vez, incomodam-me deveras.

Torço para que o manifesto do Pedro Cardoso contribua para alguma tomada de consciência. Como ele disse, não é uma questão de censura ou moralismo; não, não é. Concordo com ele, por vezes, também sou confundida com uma moralista, adjetivo - pejorativo - que não me cabe.

Vocês já leram o manifesto?

sábado, 1 de novembro de 2008

Bálsamo 1


Fátima, a fiandeira

"Numa cidade do mais longínquo Ocidente, vivia uma jovem chamada Fátima, filha de um próspero fiandeiro. Um dia o pai lhe disse:
- Vem, filha, faremos uma viagem, pois tenho negócios a resolver nas ilhas do mar Mediterrâneo. Talvez encontres por lá algum jovem atraente, de boa posição, com quem poderias se casar.
Puseram-se a caminho e viajaram de ilha em ilha; o pai cuidando de seus negócios, enquanto Fátima sonhava com o marido que logo poderia ter. Mas um dia, quando estavam a caminho de Creta, levantou-se uma tempestade e o barco naufragou. Fátima, semiconsciente, foi arrastada a uma praia perto de Alexandria. Seu pai tinha morrido e ela ficou totalmente desamparada.
Podia recordar-se apenas vagamente de sua vida até aquele momento, pois a experiência do naufrágio, e o fato de ter ficado exposta às inclemências do mar, tinham-na deixado completamente exausta.

Quando vagava pela areia, uma família de tecelões a encontrou. Embora fossem pobres, levaram-na para sua casa humilde e ensinaram-lhe seu ofício. Desse modo, Fátima iniciou uma nova vida, e dentro de um ou dois anos voltou a ser feliz, reconciliada com sua sorte. Porém, um dia, quando estava na praia, um bando de mercadores de escravos desembarcou e a levou, junto com outros cativos.
Apesar de lamentar-se amargamente de seu destino, eles não demonstraram nenhuma compaixão: levaram-na para Istambul e a venderam como escrava. Seu mundo tinha desmoronado pela segunda vez.

No mercado havia poucos compradores. Um deles era um homem que procurava escravos para trabalhar em sua serraria, onde fabricava mastros para embarcações. Quando viu o abatimento da infeliz Fátima, decidiu comprá-la, pensando que poderia proporcionar-lhe uma vida um pouco melhor do que teria nas mãos de outro comprador.
Levou Fátima para casa, com a intenção de fazer dela uma criada de sua esposa. Ao chegar, soube que tinha perdido todo seu dinheiro quando um carregamento fora capturado por piratas. Não podia enfrentar as despesas que lhe davam os empregados, e assim ele, Fátima e sua mulher arcaram sozinhos com a pesada tarefa de fabricar mastros.
Fátima, grata ao seu patrão por tê-la resgatado, trabalhou tão arduamente e tão bem que ele lhe deu a liberdade e ela passou a ser sua auxiliar de confiança. Assim, chegou a ser relativamente feliz em sua terceira profissão.

Um dia ele disse:
- Fátima, quero que vás a Java, como minha agente, com um carregamento de mastros; procura vendê-los com lucro.
Ela se pôs a caminho mas, quando o barco estava diante da costa chinesa, um tufão o fez naufragar. Mais uma vez, Fátima se viu jogada na praia de um país desconhecido. De novo chorou amargamente, porque sentia que em sua vida nada acontecia como esperava. Sempre que tudo parecia andar bem, acontecia algo que destruía suas esperanças.
- Por que será - perguntou pela terceira vez - que sempre que tento fazer alguma coisa ela não dá certo? Por que devo passar por tantas desgraças?
Como não teve respostas, levantou-se da areia e afastou-se da praia.

Ninguém, na China, tinha ouvido falar de Fátima e de seus problemas. Mas existia a lenda de que um dia chegaria certa mulher estrangeira, capaz de fazer uma tenda para o imperador. Como naquela época não existia ninguém na China que soubesse fazer tendas, todo mundo aguardava com ansiedade o cumprimento da profecia.
Para ter certeza de que a estrangeira, ao chegar, não passaria sem ser notada, uma vez por ano os sucessivos imperadores da China costumavam mandar seus mensageiros a todas as cidades e aldeias do país, pedindo que toda mulher estrangeira fosse levada à corte.
Exatamente numa dessas ocasiões, esgotada, Fátima chegou a uma cidade costeira da China. Os habitantes do lugar falaram com ela através de um intérprete, e lhe explicaram que devia ir à presença do imperador.
- Senhora - disse o imperador quando Fátima foi levada até ele - sabe fabricar uma tenda?
- Acho que sim - respondeu a moça.

Pediu cordas, mas não tinham. Lembrando-se dos seus tempos de fiandeira, Fátima então colheu linho e fabricou-as. Depois pediu um tecido resistente, mas os chineses não tinham do tipo que ela precisava. Então, utilizando suas experiências com os tecelões de Alexandria, fabricou um tecido forte, próprio para tendas. Percebeu que precisava de estacas para a tenda, mas não existiam no país. Lembrando-se do que lhe ensinara o fabricante de mastros em Istambul, Fátima fabricou umas estacas firmes. Quando tudo estava pronto, deu tratos à bola procurando lembrar de todas as tendas que tinha visto em suas viagens. E uma tenda foi construída.

Quando a maravilha foi mostrada ao imperador da China, ele se prontificou a satisfazer qualquer desejo que Fátima expressasse. Ela quis morar na China, se casou com um príncipe atraente e onde, rodeada por seus filhos, viveu muito feliz até o fim de seus dias.
Através dessas aventuras, Fátima compreendeu que o que em cada ocasião lhe tinha parecido ser uma experiência desagradável, acabou sendo parte essencial para a sua felicidade."

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

"As histórias como bálsamos medicinais"

Do livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés.


"Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem. Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma história estar sendo contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando sobre as cabeças dos ouvintes. Às vezes, ao final de um conto, o aposento enche-se de amanhecer; outras vezes um fragmento de estrela fica para trás, ou ainda uma faixa de luz rasga o céu tempestuoso. E não importa o que tenha ficado para trás, é com essa dádiva que devemos trabalhar: é ela que devemos usar para ganhar alma. [...]
Contar histórias é trazer à baila, trazer à tona. [...]
Ao lidarmos com as histórias, estamos trabalhando com a energia arquetípica, [...]
Espero que vocês saiam e deixem que as histórias lhes aconteçam, que vocês as elaborem, que as reguem com seu sangue, suas lágrimas e seu riso até que elas floresçam, até que você mesma esteja em flor. Então, você será capaz de ver os bálsamos que elas criam, bem como onde e quando aplicá-los. É essa a missão. A única missão."

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Novos Valores

"Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade." (Z.B.)

Há alguns anos identifiquei uma diferença na demanda do consultório. Com o tempo, pareceu-me que aquela diferença tinha motivações "macro", que não estavam circunscritas apenas a minha realidade. Em linhas gerais, eu achava que as pessoas estavam dando menos valor às questões que são trabalhadas em terapia, achava que valores subjetivos estavam dando lugar a valores estéticos e materiais, talvez impulsionados pelo imediatismo - característica não comum nos processos terapêuticos. Observei também, na mesma época, o aumento do número de novas academias, salões de beleza e farmácias que comercializam produtos de beleza e não somente drogas, e não achei que esse fato fosse coincidência. Conversei com algumas pessoas sobre o assunto, mas não acho que tenham compartilhado da minha observação.

Acabo de ler Vida para consumo - a transformação das pessoas em mercadoria, de Zigmunt Bauman, sociólogo polonês já citado em posts anteriores. Comprei o livro porque imaginei que ele fosse fundamentar as minhas precárias idéias, li rapidamente - como não se deve fazer com um livro com conteúdo tão "revelador", e transcrevo aqui partes que me levam a pensar que eu não estava equivocada.

"Na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria, e ninguém pode manter segura sua subjetividade sem reanimar, ressuscitar e recarregar de maneira perpétua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável. A 'subjetividade' do 'sujeito', e a maior parte daquilo que essa subjetividade possibilita ao sujeito atingir, concentra-se num esforço sem fim para ela própria se tornar, e permanecer, uma mercadoria vendável."

"A 'subjetividade' dos consumidores é feita de opções de compra - opções assumidas pelo sujeito e seus potenciais compradores; sua descrição adquire a forma de uma lista de compras. O que se supõe ser a materialização da verdade interior do self é uma idealização dos traços materiais - 'objetificados' - das escolhas do consumidor."

"Pode-se dizer que o 'consumismo' é um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros, [...], transformando-os na principal força propulsora e operativa da sociedade, uma força que coordena a reprodução sistêmica, a integração e a estratificação sociais, além da formação de indivíduos humanos, desempenhando ao mesmo tempo um papel importante nos processos de auto-identificação individual e de grupo, assim como na seleção e execução de políticas de vida individuais."

"A questão que exige uma investigação mais atenta diz respeito ao que 'queremos', 'desejamos' e 'almejamos', e como as substâncias de nossas vontades, desejos e anseios estão mudando no curso e em consequência da passagem ao consumismo."

"A economia consumista se alimenta do movimento das mercadorias e é considerada em alta quando o dinheiro mais muda de mãos; e sempre que isso acontece, alguns produtos de consumo estão viajando para o depósito de lixo. Numa sociedade de consumidores, de maneira correspondente, a busca da felicidade - [...] - tende a ser redirecionada do fazer coisas ou de sua apropriação [...] para sua remoção [...]."

"[...] a economia consumista tem de se basear no excesso e no desperdício."

"O valor mais característico da sociedade de consumidores, na verdade seu valor supremo, em relação ao qual todos os outros são instados a justificar seu mérito, é uma vida feliz. [...] uma felicidade instantânea e perpétua. Também é a única sociedade que evita justificar e/ou legitimar qualquer espécie de infelicidade [...], que recusa-se a tolerá-la [...]."

"A 'sociedade de consumidores', em outras palavras, representa o tipo de sociedade que promove, encoraja ou reforça a escolha de um estilo de vida e uma estratégia existencial consumistas, e rejeita todas as opções culturais alternativas. Uma sociedade em que se adaptar aos preceitos da cultura de consumo e segui-los estritamente é, para todos os fins e propósitos práticos, a única escolha aprovada de maneira incondicional. Uma escolha viável e, portanto, plausível - e uma condição de afiliação.
Essa é uma guinada notável no curso da história moderna, um verdadeiro divisor de águas."

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Linha de Passe

Fui para o cinema com grande expectativa, ouvi e li muitos comentários favoráveis - vou parar de ouvir sobre filmes que pretendo assistir, tenho me decepcionado.

Achei lento; e olha que, quem me conhece sabe, gosto disso - não gostei dessa vez.

E angustiante.
Saí do cinema pensando que a angústia não era por aquelas personagens - ou por pessoas reais com aquela estrutura sócio-econômica-familiar-geográfica-etc.

A angústia era pela procura dO lugar.
E quem já não sentiu essa angústia?
Quantos de nós convive com ela diariamente?
E quantos fazem quase qualquer coisa para não repará-la, não pensá-la, não sentí-la, não vivê-la?

Eu sinto essa angústia. É, e talvez o filme tenha me desagradado, talvez me surpreendido, porque pensei que fosse assistir a um filme que abordasse, basicamente, a desigualdade, a falta de oportunidade de determinada parcela da população, principalmente das cidades grandes.

Mas não. Ele me remeteu à minha angústia, à minha procura, à minha falta.
Pra mim esse filme fala disso, independentemente de classe social, condição econômica ou posição geográfica - fala de busca e da angústia que ela pode causar.

domingo, 14 de setembro de 2008

Floral de Bach

Estou criando horários de atendimento com Florais de Bach, às 4ª de tarde e às 5ª de noite, tendo possibilidade de atendimento domiciliar.

Para quem não conhece:
Dr Edward Bach [1886-1936], médico inglês que fez carreira como patologista, bacteriologista e homeopata, desenvolveu pesquisa de um sistema de cura baseado no tratamento do estado emocional do indivíduo e não na doença e seus sintomas. Descobriu 38 florais, cada um deles para um estado emocional e mental específico; 37 baseiam-se em flores silvestres e 1 é preparado a partir da água de fonte natural.

Há 10 anos estudo e trabalho com esses florais através de cursos, leitura, auto-indicação e indicação a amigos, familiares e clientes. Atualmente, curso o Programa Internacional de Bach que concede registro internacional certificado pela Fundação Dr. Edward Bach da Inglaterra.

Marcação de horário e outras informações por aqui, por e-mail ou pelos meus telefones!

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

As Horas

Filme pra ver, rever, deixar passar e ver de novo.
Pra pensar e repensar.
Exercício pra aprender a não julgar, 792ª tentativa.

Associação livre

Falta d'água e de consideração, falta de senso.
Água Fria - bairro da capital cearense - é quente: paradoxo; diferente das águas daqui.
Falta de norma.
Falta de sanasacergroppectiva.
Vou inventar outra vida, lá, não faltará.

sábado, 23 de agosto de 2008

Eu lavo os olhos com xampu de bebê

(parece até nome de comunidade do orkut, mas não é, ou será que tem?)

Pois é, estive no oftalmologista e ele me receitou lavar os olhos com xampu de bebê!!!! Acho que tem a ver com o progresso tecnológico, porque não arde! Ele diagnosticou uma inflamação na pálpebra - embora eu não sinta nada. E o tratamento é esse: xampu nos olhos duas vezes por dia. Espero que o resultado seja bom pra compensar minha ansiedade da primeira vez - que medo... tive que ter muita confiança no médico e na Johnson's pra acreditar que não ia arder muito.

Será que passarei a ver o mundo sob a ótica infantil??
Talvez não fosse má idéia.

p. s.: o xampu é diluído em água: 1/3
não serve xampu para cabelos cacheados...

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Percebendo a possibilidade da morte ou A insensibilidade de adultos frente a suas crianças

Hoje ouvi um quase-diálogo entre um menino de seus 3 ou 4 anos e uma mulher - provavelmente sua mãe. Ele voltava da casa do pai e contava que seu peixinho de estimação tinha morrido na noite anterior e que tinha sido jogado no vaso sanitário.

_ Mas ele está no mar, né? - consolou-se o menino.
_ É - respondeu a mãe.
_ Mas não devia ter jogado no vaso, eu queria ver se tava se mexendo.

(silêncio)

_ Eu tô com saudade dele...
_ Ah!...
_ Eu tô com saudade, quero outro peixe.
_ Tá bom.
_ Então, um cachorrinho!!!!!!!!! - ousou o menino.
_ Não.
_ Um gato!
_ Não.
_ Um passarinho?!?!?!?!?
_ Ai, que coisa...
_ Esquilo morre??

sábado, 26 de julho de 2008

desassossego

Dia vazio. Nada pra fazer, ou melhor, muito o que fazer, mas nada que eu queira. Quero não fazer nada, mas até não fazer nada está "descendo quadrado" hoje.

Sei lá. Queria o mundo.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

algumas coisas ficam melhores no papel

cinema vazio
só eu,
alguma luz e o barulho de um motor ao longe
calor
o que fazer, só, num lugar?
ligaram o ar,
ainda quente
quantos beijos podiam ser dados aqui?
um beijo roubado
posso imaginar o que quiser.
o vazio não é o contrário do cheio.
o vazio é o todo.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ele era um excelente professor. Doutor; enfrentara muitos desafios para conquistar esse lugar. Contava muitas histórias a seus alunos, que o adoravam. Histórias inventadas, lidas, ouvidas - histórias de outros, recolhidas por ele que as narrava como se fossem suas. Apossava-se delas e contava aos alunos, encantadoramente. Realizava-se com o magistério, empenhava-se nos estudos, estar em sala de aula era, realmente, o que almejara. Um dia parou para ouvir um menino: Vivia uma vida simples, numa pequena cidade; distante. Vivia segundo as oportunidades, sujeito a acasos, sem conforto; junto à família. Era um menino e sonhava.
Pensou que esta sim poderia ter sido a sua história.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Estou de luto

O Visconde de Sabugosa morreu.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Forma e Significado


Meus, ainda sem título, 6 de 22, março/junho 2008:

















Do Bauman, em Identidade, 2004:
"Sim, é preciso compor a sua identidade pessoal da forma como se compõe uma figura com as peças de um quebra-cabeça, mas só se pode comparar a biografia com um quebra-cabeça incompleto, ao qual faltem muitas peças."
"... a idéia de 'ter uma identidade' não vai ocorrer às pessoas enquanto o 'pertencimento' continuar sendo o seu destino, uma condição sem alternativa. Só começarão a ter essa idéia na forma de uma tarefa a ser realizada, e realizada vezes e vezes sem conta, e não de uma só tacada."
Não é meu, esqueci de quem é, mas cabe aqui:
"Urge avançar no entendimento das diferenças na repetição."

terça-feira, 10 de junho de 2008

1 ano de blog!

Há 1 ano inventei esse canal de expressão.
Ele cumpriu o objetivo de ser despretensioso e de acolher as n personas.

Agora, de repente, lembrei da data.
Coisas - quase inexplicáveis - da memória humana.

Eu não tinha essa data marcada na minha agenda e nem pretendia comemorar o primeiro aniversário do blog. Aí, vi escrito na tela: 10 de junho, E LEMBREI!! Onde será que estava essa informação para ser pinçada, assim, de lá?

Outro dia estava lendo sobre a memória...
A minha é engraçada, por exemplo, lembra de datas de aniversário de pessoas que não vejo há milênios; mas esquece de filmes que assisti há pouco tempo, mesmo que eu os tenha a-do-ra-do.

Segundo o cientista argentino Iván Izquierdo, o melhor exercício para a memória é a prática de leitura. Portanto, continuem lendo o npersonas!!!!!!

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Células tronco

Considero um avanço político e científico a aprovação da pesquisa de células tronco no Brasil.

Tema polêmico. Mas é benéfico apostar na possibilidade de cura. Afinal, os embriões que serão utilizados nas pesquisas são considerados inviáveis para a vida, na prática, lixo. Sim, já eram lixo antes da aprovação das pesquisas. Este deveria ser o tema polêmico: o produto não utilizado das inseminações artificiais - procedimento legal.

Um banco de embriões viáveis para a pesquisa está em formação; as clínicas de inseminação artificial vão informar sobre a quantidade e a localização dos embriões objetos do estudo.

Resta-nos esperar por uma legislação coerente que possibilite efetivamente o avanço das pesquisas. E, mais, resta-nos esperar que a ética faça parte do processo.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Blogs

Tenho lido alguns blogs muito interessantes.
Aliás, essa construção é muito generosa, pois cabe tudo nela.
Um blog permite qualquer intenção.

Alguns trazem reflexões que poderiam ser ditas num setting terapêutico.
Lá, seriam convidadas à elaboração; aqui, são oferecidas como poesia.

Outros apresentam textos literários que poderiam ser oferecidos às editoras.
Lá, não sei o que seriam; aqui, são obras de arte.

A intenção.
Elemento, em si, transformador.

sábado, 12 de abril de 2008

A mais recente persona

Faz parte do Conselho do condomínio onde resido.
Não sei muito sobre ela, além de que é capricorniana.

sábado, 29 de março de 2008

Lapso

Do livro Conto a Gotas, ainda não publicado.

Era uma família de muitos irmãos. Família tradicional, com muito orgulho. Todos já estavam casados, tinham suas próprias famílias e maneiras de ver a vida. Encontravam-se com alguma freqüência, sempre em reuniões ou jantares animados e longos. Família numerosa. Havia grandes amores e alguns desafetos sempre disfarçados. Não valia a pena discutir algumas coisas, tornar público outras, levar a sério o que não era possível sustentar. Viviam assim e eram tão felizes quanto todas as outras famílias. Mas, um dia não foi possível encobrir o acontecido. Afinal, nem tudo pode ser contido. E o escândalo aumentava a cada fato novo. Edgar amava a mulher e acreditava, verdadeiramente, na recíproca. Nunca tinham tido grandes problemas e enfrentavam os desafios da vida como uma equipe. Mas a mulher o traíra. Uma única vez. O perdão não era humanamente possível. Encontrara, por acaso, com Ney, um amigo de infância, que disse ter visto sua esposa e seu irmão mais novo saindo de um motel. Não havia dúvidas, a placa do carro fora anotada. Edgar estava transtornado. A família não sabia como agir. Meses depois, Edgar foi absolvido, a alegação de perda temporária de consciência fora aceita.

terça-feira, 18 de março de 2008

Será?

Será que procuramos nossos males?
Sim.
Mas em que medida?
Consciente ou inconscientemente?

Doenças, dívidas, vícios, perdas, desencontros - destino ou escolha?

Seja como for, dá em todo mundo.

Talvez, às vezes, seja melhor calar sobre o mal alheio, para evitar ouvir o que não queremos ou magoar alguém.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Silêncio

33 dias sem escrever

1 estado de quem se cala ou se abstém de falar 2 privação, voluntária ou não, de falar, de publicar, de escrever, de pronunciar qualquer palavra ou som, de manifestar os próprios pensamentos etc. 3 taciturnidade, discrição 4 interrupção de correspondência 5 ausência ou cessação de barulho, ruído ou inquietação; calada 6 qualidade do que é calmo, tranqüilo, sossego, paz 7 sigilo, mistério, segredo 8 us. com a intenção de fazer calar ou cessar alarido ou desassossego.

Dicionário Houaiss da língua portuguesa

domingo, 20 de janeiro de 2008

A menina tinha gosto especial pelo verde. Achava divertido constatar que a maioria de suas roupas era verde. Sempre que precisava escolher alguma coisa, tendia ao verde e seus muitos tons. Um dia, andando na rua, observou, mais uma vez, uma peça de roupa verde em uma vitrine de loja. Sorriu com a não surpresa do olhar; porém, neste mesmo momento, deparou-se com uma parede verde, reparou também que vinha a seu encontro um rapaz com blusa verde e, descobriu, então, que o que manchava tudo a seu redor de verde era o seu olhar. Seus olhos – nascidos azul celeste – agora verdes, davam aquele tom a suas escolhas.

"o verde fala a língua de todas as cores." (Mia Couto)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A Partilha

Do livro Conto a Gotas, ainda não publicado


O casal vivia junto há mais de quinze anos. Eram divertidos e pareciam felizes. As diferenças não causavam problemas à relação, já deviam ter aprendido a lidar com elas depois de tanto tempo juntos. Mas houve um dia em que se desentenderam seriamente. A vida em comum não era mais possível. O melhor a fazer era a separação, por respeito aos dois e ao que viveram. Ninguém acreditava muito naquilo, mas era verdade. Começaram a discutir as coisas práticas, quem ficaria no apartamento? Quem cuidaria do cachorro? Tinham muitas decisões a tomar. Quem ficaria com o aparelho de chá, presente da avó dela que tinha uma inconfessa preferência por ele? E aquele cd com as músicas que faziam parte da história romântica do casal? O aparelho de telefone do Garfield comprado na primeira viagem a Miami? A maior briga: com quem ficaria o único quadro que pintaram juntos depois do primeiro show que assistiram? Tinham combinado que pintariam um quadro toda vez que voltassem de um show, mas, apesar de terem ido a inúmeros espetáculos, só pintaram aquele quadro. Foram dias de muita tensão. Algumas decisões foram através de “par ou ímpar”, outras, por chantagem emocional. Ufa! Tinham conseguido terminar, jogaram-se no sofá exaustos. Quando iam brindar o fim da partilha, avistaram o computador... o único computador... Olharam-se por um longo tempo. Abraçaram-se, desfizeram as malas e combinaram nunca comprar outro computador.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Milágrimas

de Itamar Assumpção e Alice Ruiz

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso de tristeza, vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre